sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A passagem



Tinha uma casa. Tinha uma fazenda. Tinha um lar dentro dessa fazenda. Havia uma trilha, e várias árvores em volta este caminho barroso. Havia duas crianças, e vários senhores de idade que cuidavam dessas crianças como se fosse seus.
Adolescentes agora, conhecendo seus corpos, seus sentimentos, suas dores reais. Começaram a se entrelinhar. Começaram a se encontrar. E acabaram por se amar.
Foi uma dor pagã, no final quando ele teve que ir. Ela ficou por causa de sua doença. Ele apenas abriu a porta e saiu, numa facilidade. Já não parecia amor, ao despedir.
Ela se escondeu pra não ser mais achada, ele mudou-se para não ser mais procurado. Mas dizem sempre que o destino nos traz tudo que a gente menos espera. Ele não esperava mais.
Ele se esqueceu de lembrar tudo aquilo que ele quis esquecer. Ela se lembrou de esquecer que tinha de lembrar tudo o que teria de ter esquecido.
Ele não teve opção, ela teve percepção. Ele esquivou-se de ser quem um dia já foi. Ela apenas queria que ele fosse dela outra vez.
A mentira tomou conta de dois seres que já não queriam ser mais quem tinham de ser, um para com o outro.
Ele já não sabia quem era quando teve de voltar. Ela só sabia que nada saberia se um dia soubesse que iria saber que ele poderia voltar.
É uma combinação perfeita: madrugada, frio, dois corpos (em sintonia).
A porta se reabriu, mas não teve duas chances. Ela já não poderia mais mover o dedo para encostar em seu rosto, com a barba por fazer. Os detalhes que ficaram junto a cama, ficaram lá pra sempre.
A caixa de fotos ficou embaixo da cama dela. Os últimos 3 anos, ficou intocável. Ela teria apenas ido embora, para não ter que vê-lo chegar. Ele voltou para poder se adentrar na vida de um ser como o dela. Acabou.
Um acidente aconteceu. Dois veículos se esbarraram. E não, não era ela, que tinha batido nele. Era o senhor Lúcio, que teria cuidado dos dois quando pequenos.
Eles se viram de novo. Ele foi embora, ela não o reconheceu. Nenhuma palavra foi dita. Apenas uma carta deixada em cima da mesa do bar.
A vida não dá chances pra ninguém. Eles criaram o quanto puderam. Criaria vós a sua deveras chance.

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